Os avanços em Neurociências Educacional já nos permitem minimamente conhecer sobre alguns dos mecanismos básicos de funcionamento do cérebro. Sabemos que a memória exige um determinado nível de estresse fisiológico para que se possam formar os registros de longo prazo.
Não basta apenas elevar o nível de estresso fisiológico, mas também há a necessidade de se criar relações, conexões entre os conteúdos para que o estabelecimento da memória, e sua recuperação, possam ocorrer de forma efetiva.
Adicionalmente, sabemos que quanto maiores forem o estresse e as conexões, mais tempo esta memória estará disponível.
Os modelos de ensino e funcionamento do ambiente escolar ignoram completamente estes perfis de funcionamento fisiológico, deixando de lado grandes aliados no processo de ensino e aprendizado.
Como consequência, baixos índices de aprendizado escolar, desestímulo e desmotivação dos alunos, insatisfação dos educadores e aumento do fracasso escolar, quando se considera as habilidades de interpretação de textos complexos, matemática avançada entre outros parâmetros de excelência educacional.
Fisiologicamente Importante
As evidências neurocientíficas de décadas mostram que nosso aprendizado está diretamente relacionado com nossa capacidade de memorizar informações relevantes. Isto também é verdade para a linguagem e para as habilidades educacionais de leitura, escrita e aspectos matemáticos como quantidade, orientação espacial e tempo (Shing & Brod, 2016).
A consequência direta desta informação é que o aprendizado efetivo será melhor quanto melhor forem nossas capacidades de criar memórias. Aqui, estamos considerando todo e qualquer aprendizado, inclusive afetivo e social.
Mas da perspectiva escolar, temos relativo interesse nos processos de alfabetização e de desempenho em leitura e escrita, como bases do nosso sistema de comunicação formal e construção, manutenção e transferência de conhecimentos para as gerações futuras. As memórias são fundamentos importantes neste processo.
A memória se estabelece por mecanismos específicos de funcionamento cerebral. Repetição de estimulação e repetição de recuperação da informação. Neste sentido, a consolidação do conhecimento só ocorre por meio de extensivo processo de oferta de estímulo e recuperação desta. É isso que chamamos de aprendizado (Baker, Salinas, & Eslinger, 2012).
Outro mecanismo que promove a consolidação de memórias permanentes é a criação de redes de conexão que permitam gravar e recuperar a informação por diferentes formas, de diferentes maneiras.
Redes neurais são importantes substratos neurofisiológicos que permitem não só a associação de eventos e fatos aprendidos, como também fortificam os mecanismos de memórias. Isto porque possibilitam a recuperação da mesma informação de várias formas diferentes.
Infelizmente, isto é tudo o que nossa escola não está fazendo. As aulas são em sequencias apenas progressivas, de conteúdo fragmentado e com poucos momentos de treino de recuperação de informação. Os temas são autoconclusivos em si.
Não há conexão com o conhecimento já adquirido pela criança que, junto a fragmentação, diminuem a compreensão única de como funcionamos e de como funciona o nosso mundo e o universo.
Não há consolidação do aprendizado por longo tempo, de forma eficiente, nem associações de ideias, arraigando ainda mais as divisões meramente acadêmicas e pedagógicas das disciplinas escolares (Brookman, 2016). Perde-se a noção do todo.
Outros Mecanismos Relevantes
Nosso ritmo biológico varia sensivelmente em diferentes fases do nosso desenvolvimento. Adolescentes tendem a ter um relógio biológico para acordar e dormir mais deslocado para horários tardios, em comparação com crianças e adultos.
Conhecer e aplicar estes conhecimentos no planejamento escolar é mais uma forma de garantir que o aluno esteja na escola, em seu momento mais desperto e com suas capacidades de desempenho fisiologicamente mais ativadas.
Há também de se considerar que diferentes crianças apresentam diferentes ritmos de aprendizado. Alguns necessitam de mais repetição para consolidação de memória, outros fazem associações de forma mais espontânea.
Deve-se, portanto, conhecer profundamente o aluno que está em sua sala de aula, para que possa se oferecer toda a demanda necessária e evitar demandas desnecessárias.
Ambas afetam o aprendizado seja por falta de estimulação necessária ou por desmotivação por estímulos em excesso.
Já está estabelecido há mais de 50 anos que nossa janela atencional funciona em períodos de 10 a 18 minutos, necessitando de intervalos para novas janelas se estabelecerem. Aulas de 50 minutos não são eficientes. Geram fadiga física e mental, reduzindo a atenção e o estresse fisiológico positivo para o aprendizado.
E pra finalizar…
Nossa escola não está adaptada ao funcionamento cerebral já conhecido pelas neurociências. A educação, em sua marcha pela construção de uma ciência do aprendizado, está falhando significativamente, em estar há décadas não considerando os avanços das ciências parceiras, como a psicologia cognitiva e as neurociências.
Insiste em negar evidências científicas importantes para seu aprimoramento.
As gestões escolares perdem possibilidade de ampliar seu impacto no desenvolvimento de escolas mais eficientes, formando cidadãos com maiores plenitudes humana e intelectual.
Resultado desta cegueira: penúltima colocação no PISA 2018, com somente 2% dos nossos alunos com 15 anos de idade atingindo níveis superiores de desempenho. Uma vergonha!
Referências
Baker, D. P., Salinas, D., & Eslinger, P. J. (2012). An envisioned bridge: Schooling as a neurocognitive developmental institution. Developmental Cognitive Neuroscience, 2, S6-S17. doi:10.1016/j.dcn.2011.12.001
Brookman, A. (2016). Learning from educational neuroscience. Psychologist, 29(10), 766-769. doi:
Shing, Y. L., & Brod, G. (2016). Effects of Prior Knowledge on Memory: Implications for Education. Mind Brain and Education, 10(3), 153-161. doi:10.1111/mbe.12110
Programme for International Student Assessment (PISA) https://www.oecd.org/pisa/publications/PISA2018_CN_BRA.pdf




