Termos Básicos para Reabilitação em Baixa Visão

Uma das características importantes da ciência é o estabelecimento de uma linguagem em comum, aumentando a precisão de se comunicar de forma eficiente.

O uso preciso da terminologia estabelecida não é, portanto, um preciosismo acadêmico, mas uma necessidade de nossa prática clínica.

Neste post, apresentamos os conceitos básicos da visão utilizados na reabilitação de pacientes com baixa visão.

Termos e Conceitos Fundamentais

Baixa Visão não é uma condição única. Alguns indivíduos classificados como ‘baixa visão’ sofrem perda da acuidade visual, outros sofrem perda do campo visual; alguns se beneficiam de mais luz, outros precisam de óculos escuros, etc.

Uma reabilitação bem-sucedida de baixa visão requer uma compreensão dessa diversidade de condições e necessidades físicas. Em muitos casos, essa compreensão é dificultada pelo legado persistente da dicotomia simplista em preto e branco entre aqueles que são ‘legalmente deficientes’ e aqueles que são ‘legalmente cegos’. Vamos rever alguns dos termos básicos (Colenbrander & Fletcher, 1992; Wilkinson & Shahid, 2018).

PERDA DE VISÃO é um termo relativamente neutro que pode ser usado para descrever qualquer tipo ou grau de mudança na visão. Pode aplicar-se à perda da acuidade visual, bem como às alterações do campo visual. Pode aplicar-se àqueles que perderam apenas um pouco de visão, bem como àqueles que ainda têm pouca visão.

CEGUEIRA, por definição, é a perda total da visão. Infelizmente, distorções desse termo se infiltraram no uso comum. Em um sentido técnico, o uso da palavra cegueira muitas vezes foi diluído, estendendo-a a condições de perda parcial da visão, como na cegueira legal, e até mesmo a deficiências menores, como no daltonismo (Colenbrander & Fletcher, 2018).

Assim, o termo cegueira tornou-se mais associado aos sentimentos lamentáveis em torno da perda de visão do que ao tipo ou grau de perda de visão em si. Não é de admirar, então, que se diga que muitos pacientes temem mais a cegueira do que a morte.

O termo “cegueira legal” originou-se nos anos 20 e 30. A definição de ’20/200 ou menos’ foi baseada na descoberta de que a empregabilidade foi significativamente reduzida nesse nível de perda de visão, uma relação mais claramente refletida em termos anteriores, como cegueira ‘industrial’ ou ‘ocupacional’.

Infelizmente, o uso generalizado do termo cegueira legal para denotar perda severa de visão perpetua o pensamento claro. É tão absurdo chamar um paciente com perda severa de visão de ‘legalmente cego’ quanto seria chamar um paciente gravemente doente de ‘legalmente morto’.

Características das Perdas Visuais

A perda de visão pode ser considerada sob vários pontos de vista. Os termos Transtorno Visual, Deficiência Visual, Baixa Visão e Dificuldade Visual, embora muitas vezes usados como se fossem sinônimos, na verdade descrevem aspectos e pontos de vista tão diferentes (Colenbrander, 2010).

Os termos Transtorno Visual e Deficiência Visual focam na condição do sistema visual, enquanto Baixa Visão e Dificuldade Visual descrevem a condição da pessoa.

O termo TRANSTORNO VISUAL refere-se à condição anatômica que causa a perda da visão. Os distúrbios são descritos em termos anatômicos: catarata, cicatriz retiniana, atrofia óptica, etc.

A condição anatômica por si só, no entanto, não descreve o quão bem o olho funciona. Sob o termo BAIXA VISÃO descrevemos o estado funcional do sistema visual, utilizando medidas funcionais, tais como: acuidade visual, campo visual, sensibilidade ao contraste, etc.

Quando descrevemos uma DIFICULDADE VISUAL, não descrevemos a condição do olho, mas a capacidade do indivíduo como um todo. Para medir e descrever a capacidade ou deficiência do indivíduo, precisamos de descritores mais amplos, tais como: habilidades de vida diária, habilidades vocacionais, habilidades de orientação e mobilidade, habilidades de leitura, habilidades de escrita, etc.

Descrever as habilidades de um indivíduo é importante; no entanto, não indica como o papel ou lugar dessa pessoa na sociedade é afetado. O termo DEFICIÊNCIA VISUAL refere-se às consequências sociais e econômicas da perda da visão. Pode ser descrito em termos do esforço extra que um indivíduo tem que usar para obter o mesmo objetivo e em termos de questões de independência/interdependência: independência econômica, vida independente, mobilidade independente, etc.

À medida que o campo da reabilitação da visão subnormal avança na comunidade de saúde, será benéfico para médicos e pesquisadores usar terminologia universal precisa para maximizar a comunicação e o trabalho em equipe e promover o desenvolvimento de técnicas de reabilitação.

Referências

Colenbrander, A. (2010). Assessment of functional vision and its rehabilitation. Acta Ophthalmol, 88(2), 163-173. doi:10.1111/j.1755-3768.2009.01670.x

Colenbrander, A., & Fletcher, D. C. (1992). Low vision rehabilitation: basic concepts and terms. J Ophthalmic Nurs Technol, 11(1), 5-9. Retrieved from https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/1531858

Colenbrander, A., & Fletcher, D. C. (2018). Vision Rehabilitation. J Neuroophthalmol, 38(2), 135-137. doi:10.1097/WNO.0000000000000655

Wilkinson, M. E., & Shahid, K. S. (2018). Low vision rehabilitation: An update. Saudi Journal of Ophthalmology, 32(2), 134-138. doi:10.1016/j.sjopt.2017.10.005

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