Diferenças (também neurais) entre Dificuldades e Transtornos de Aprendizagem

Infelizmente, a qualidade da informação sobre Dificuldades e Transtornos de Aprendizagem é muito escassa. É muito comum encontrarmos posts, comentários e até mesmo vídeos nas redes sociais e mídias de streaming sobre neurociência e educação. Muitas das pessoas que comentam sobre o assunto não têm formação específica na área de neurociências, tendo, no máximo, algum curso de curta duração no tema.

A evidência da fragilidade da formação destas pessoas é facilmente observada nos erros de aplicações dos diferentes conceitos para definir os problemas de aprendizagem. A principal destas alterações está no uso dos termos Dificuldades e Transtornos de Aprendizagem.

Dificuldades e Transtornos de aprendizagem são duas condições distintas, assim como também é distinto o mecanismo neurofisiológico de base. Ainda, estas diferenças também são importantes para fins de tratamento e expectativa de superação do problema com o aprendizado.

Para facilitar o entendimento, é importante lembrarmos que a dimensão cognitiva do aprendizado é um contínuo (Figura 1). De forma posicional neste contínuo, podemos conceber o local mais apropriado para a designação dos problemas com o aprendizado. Ainda, fica mais claro o entendimento dos mecanismos neurofisiológicos de base para cada condição, com base nas evidências científicas que temos até o momento.

As Bases Neurocientíficas do Contínuo Cognitivo do Aprendizado

Em nossa prática acadêmica buscamos sempre que os alunos consigam desenvolver suas habilidades (perceptuais, cognitivas e sociais) ao máximo. Todos nos dedicamos para isso. Esta aquisição positiva além de 50% de avanço no desempenho escolar, chamamos de sucesso escolar. Uma aquisição inferior a 50% definimos como fracasso escolar.

Fica muito claro que em ambos os perfis de conquista escolar temos extremos que são alcançados por uma porcentagem mínima dos alunos, em torno de 10%. A região superior é denominada de Desempenho Superior e apresenta questões importantes que serão tema de outro post. Nosso escopo neste post é com a diferenciação das crianças com dificuldades escolares e, principalmente com as que apresentam transtorno de aprendizagem.

Dificuldades X Transtornos de Aprendizagem

Pelo ponto de vista neurocientífico, o fracasso escolar tem relação com diferentes mecanismos neurofisiológicos. Antes do período escolar, há uma série de janelas de desenvolvimento cerebral, chamadas de período crítico que são de fundamental importância para nosso desenvolvimento pleno. Neste período, áreas específicas do cérebro estão mais sensibilizadas para receber estímulos específicos. Diferentes momentos ao longo da primeira infância são importantes para linguagem, matemática, processamento espacial, rítmico, entre outros.

A não oferta destes estímulos ou a oferta de estímulos inadequados irá causar pouco impacto no desenvolvimento destas áreas cerebrais. Quando a criança ingressa no ensino fundamental, ela demonstrará esta ausência de estimulação, com um fraco desempenho escolar. Para a maioria das crianças (em torno de 80% delas) há uma recuperação substancial da privação de estimulação e um desempenho escolar esperado é alcançado.

Estudos recentes mostram que esta ausência de estimulação não é revertida plenamente e o desempenho encontrado nestas crianças, mesmo em fase de estudo do ensino médio, é de 1 ponto médio menor em suas notas escolares (Caffarra, Karipidis, Yablonski, & Yeatman, 2021). Estes achados são robustos e mostram que, embora haja substancial plasticidade cerebral na infância, longos períodos de privação ou estimulação empobrecida, deixam sutis marcas para a vida toda.

Os transtornos ocorrem em 10% das crianças, o que correspondem a aproximadamente 20% das crianças com fracasso escolar. Os mecanismos neurofisiológicos que estão na base destas reduções de desempenho estão presentes desde o nascimento ou são adquiridos principalmente na primeira infância.

Os transtornos de aprendizado estão relacionados a alterações cerebrais identificáveis, tem uma relação genética importante e ocorrem mesmo com a oferta adequada de estimulação adequada nos períodos esperados da infância (Richlan, 2012). Há significativa relação com doenças e condições de vida nesta primeira infância como prematuridade, anóxia e hipoglicemia neonatal (Arp & Fagard, 2005). Cerca de 40% apresentam características claras de herança genética.

Os transtornos apresentam uma maior resistência à estimulação e à recuperação de desempenho escolar. Podem aparecer em diversos graus, desde os mais debilitantes e que limitam a aquisição de conhecimento que necessita de processos cognitivos de alta ordem, até os mais sutis, muito semelhantes aos desempenhos das crianças com dificuldade. Isso dificulta muito o diagnóstico do transtorno e sua adequada condução terapêutica (Cohen et al., 2004).

Nos casos de transtorno de aprendizagem há a necessidade de suporte profissional que inclui psicopedagogia, neuropsicologia e, em muitos casos, tratamentos com medicações prescritos por neurologistas ou psiquiatras para alívio de sintomas diretos e indiretos às dificuldades.

Considerações Finais

Conhecer os diferentes desempenhos escolares e seus mecanismos neurofisiológicos são de grande importância para o desenvolvimento escolar da criança que apresenta fracasso escolar. Conhecer a existência de períodos críticos e como eles impactam nosso desenvolvimento pedagógico é a base para desenvolvermos métodos cada vez mais precoces e de maior sensibilidade para identificar corretamente os casos de dificuldade ou de transtorno. Quanto antes se estabelecer o diagnóstico correto, menor será o impacto para todo o desenvolvimento escolar e pessoal desta criança.

Referências

Arp, S., & Fagard, J. (2005). What impairs subitizing in cerebral palsied children? Developmental Psychobiology, 47(1), 89-102. doi:   

Caffarra, S., Karipidis, II, Yablonski, M., & Yeatman, J. D. (2021). Anatomy and physiology of word-selective visual cortex: from visual features to lexical processing. Brain Structure & Function, 226(9), 3051-3065. doi:10.1007/s00429-021-02384-8

Cohen, L., Henry, C., Dehaene, S., Martinaud, O., Lehericy, S., Lemer, C., & Ferrieux, S. (2004). The pathophysiology of letter-by-letter reading. Neuropsychologia, 42(13), 1768-1780. doi:10.1016/j.neuropsychologia.2004.04.018   

Richlan, F. (2012). Developmental dyslexia: dysfunction of a left hemisphere reading network. Front Hum Neurosci, 6, 120. doi:10.3389/fnhum.2012.00120

Processamento Visual

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