Uma das características mais marcantes do transtorno do Espectro Autista (TEA) é a redução significativa do contato visual, principalmente para estímulos que são muito relevantes para nossa espécie, como a face humana. A principal questão sobre a visão do autista está em alguns pontos paradoxais que eles apresentam comportamentalmente:
- (1) a existência de uma hipersensibilidade sensorial versus uma reduzida função perceptual e cognitiva;
- (2) percepção de elementos faciais corretamente versus ausência de contato visual com face humana; e
- (3) baixa atenção bottom-up, ou seja, estímulos fracos capturam a atenção versus alta atenção top-down, manutenção da atenção fixamente em estímulos específicos.

Processamento Local Versus Global
Após muitas pesquisas levarem a resultados inconclusivos ou contraditórios, começou-se a considerar que algumas classes de processos perceptuais poderiam estar afetadas. No sistema visual, existe uma forte relação entre o aporte sensorial de diferentes vias visuais como a Magnocelular – implicada em subsidiar processos temporais, espaciais de grande campo e alta sensibilidade ao contraste, e a via Parvocelular – implicada no processamento cromático verde-vermelho, baixa sensibilidade ao contraste e processamento temporal e espacial de pequenas amplitudes, com funções perceptuais e cognitivas de mais alta ordem, como as vias ventrais e dorsal do processamento pós-sensorial.
A via dorsal realiza processamentos denominados globais, nos quais aspectos dinâmicos e de grande amplitude espacial são processados. Esta via está relacionada ao processamento visual de espaço, memória espacial visual, atenção visual, percepção de movimento, tridimensionalidade entre outras.
A via ventral realiza processos denominados locais, uma vez que priorizam detalhes e pequenos elementos espaciais, características e memória para animais, objetos e cenas. Certamente, neste nível há certo grau de colaboração entre os processamentos, para que habilidades perceptuais superiores como constâncias e unidade da percepção consciente.
Os trabalhos recentes tem massivamente indicado que no TEA há um grande distúrbio com o processamento da via global, com a preservação do processamento da via global (McLaughlin et al., 2021; Robertson, Kravitz, Freyberg, Baron-Cohen, & Baker, 2013; Robertson et al., 2014).
Estas alterações evidentes no processamento global explicam as baixas atenções espaciais em campo aberto, a redução no processamento de estímulos dinâmicos – fazendo-os necessitar de maiores velocidades para perceber estímulos em movimento, consequentemente tendo estes caráter de novidade e aumento de interesse, e redução do uso da face como um estímulo relevante por redução de visão espacialmente estruturada.
Além disso, a redução de processamento global leva à redução direta da capacidade de perceber mudanças de expressão visual e de micro-expressões, importantes para o uso da face como elemento de informação socialmente relevante.
O reduzido controle inibitório presente no processamento de informações sensoriais encontra um gargalo para sua transferência em processamento de nível perceptual e, portanto, consciente dos estímulos estruturados. Como consequência, a hipersensibilidade sensorial é fracamente utilizada para construções de experiências conscientes perceptivas e cognitivas.
Em graus de maior comprometimento cerebral, os indivíduos com TEA podem apresentar também degradação das vias locais, o que praticamente o extrai do mundo físico consciente, recolhendo-o pra dentro de si mesmo, já que não há estímulos relevantes pra além de si.
Considerações Finais
Terminamos este post mostrando que os avanços nas Neurociências Visuais têm contribuído muito para o entendimento não só de como é sua percepção visual e quais as características de seu processamento cerebral, mas também sobre a construção da consciência perceptual de alto nível de complexidade. Somente as evidências científicas podem explicar os mecanismos etiológicos de condições neurodivergentes de grande complexidade como o TEA. Novos estudos trarão certamente incríveis novidades em breve.
Referências
McLaughlin, C. S., Grosman, H. E., Guillory, S. B., Isenstein, E. L., Wilkinson, E., Trelles, M. D. P., . . . Foss-Feig, J. H. (2021). Reduced engagement of visual attention in children with autism spectrum disorder. Autism, 25(7), 2064-2073. doi:10.1177/13623613211010072
Robertson, C. E., Kravitz, D. J., Freyberg, J., Baron-Cohen, S., & Baker, C. I. (2013). Tunnel vision: sharper gradient of spatial attention in autism. Journal of Neuroscience, 33(16), 6776-6781. doi:10.1523/JNEUROSCI.5120-12.2013
Robertson, C. E., Thomas, C., Kravitz, D. J., Wallace, G. L., Baron-Cohen, S., Martin, A., & Baker, C. I. (2014). Global motion perception deficits in autism are reflected as early as primary visual cortex. Brain, 137(Pt 9), 2588-2599. doi:10.1093/brain/awu189




